"Bush recebeu caixões, Obama recebeu caixões, mas Gordon Brown nunca foi capaz de retirar um corpo de um avião. Ele nos manda para lá, mas não quer se incomodar em nos receber de volta", disse o veterano do exército britânico John Lawton, 42 anos.
No último dia 14 ele e outras centenas de pessoas acompanharam em Wiltshire a repatriação dos corpos de oito soldados mortos em menos de 24 horas no Afeganistão. De lá pra cá, o Reino Unido perdeu mais sete combatentes no front asiático, elevando o número de baixas para 22 só em julho. É o mês mais sangrento para as tropas britânicas desde o começo da campanha, em 2001. No mesmo período, o número de mortes de soldados britânicos no Afeganistão ultrapassou o do Iraque: 191 a 179.
A declaração de Lawton ao jornal The Guardian resume o descontentamento crescente do Reino Unido sobre o posicionamento do governo Brown em relação à guerra do Afeganistão.
Pressionada a acompanhar a Casa Branca, que voltou a dar mais atenção à luta contra o Talibã, a sede do governo britânico, na Downing Street, viu sua popularidade - que já não anda muito bem em função de escândalos de corrupção - despencar ainda mais. As críticas vieram de todos os lados. A principal é que o país sequer deveria estar nesta guerra. Mas há também cobranças por melhores condições técnicas para as tropas enfrentarem o inimigo.
Na semana passada, ao anunciar o final da ofensiva na província de Helmand, Brown disse ter havido um "trágico custo humano", mas que as Forças Armadas foram heróicas e nenhum esforço foi em vão. De acordo com o jornal The Telegraph, o premiê britânico chegou a afirmar que era hora de "comemorar" as baixas britânicas no Afeganistão. Tim Radford, comandante da força-tarefa em Helmand, por sua vez, disse que "houve avanços significativos e que a operação foi um sucesso".
A opinião pública, no entanto, não consegue entender o resultado das operações da mesma forma que o governo. Não parece haver motivos que justifiquem o aumento exponencial de jovens britânicos mortos. Robin Thatcher, que perdeu seu filho Cyrus, 19 anos, disse que costumava acreditar na guerra, mas agora o governo deveria repensar suas estratégias. Sua mulher, Helena Tym, diz sentir orgulho do filho morto, mas vê toda a nação indignada com a situação. "Cada vez que eu ouço 'que uma família foi informada' da morte de um parente, sinto a mesma dor da perda do meu filho", disse ao Guardian.
Em meio a mais baixas, política
O número de baixas britânicas (54) no Afeganistão em 2009 já ultrapassou o número de todo o ano passado (51). Foram seis em janeiro, outras seis em fevereiro, três em março, uma em abril, 12 em maio, quatro em junho e 22 em julho.
Enquanto o Reino Unido enterrava seus mortos, o vice-presidente americano, Joe Biden, justificou o "sacrifício" dizendo que a ofensiva era essencial para as eleições afegãs marcadas para agosto. Em entrevista à rádio BBC, afirmou que mais soldados americanos e britânicos devem perder a vida no Afeganistão.
A declaração de Biden indica que os Estados Unidos esperam continuar contando com os 9 mil soldados britânicos que estão no Afeganistão, e que não há um prazo para a retirada. No entanto, quando governo Brown anunciou o final da ofensiva apelidada de Garra de Pantera, também indicou que os países da coalizão devem investir no diálogo para diminuir a influência talibã no Afeganistão.
"Há o compromisso de derrotar a insurgência usando a força. Mas há também quem foi obrigado a pegar em armas, e essas pessoas precisam ter a oportunidade de manifestar suas opiniões, de seguir um caminho diferente", disse o ministro de Assuntos Exteriores do Reino Unido, David Miliband, em um discurso na sede da Otan, em Bruxelas.
Fonte: Noticias.terra.com.br